Textos de Espinoza

Princípios da Filosofia  Cartesiana

Pensamentos Metafísicos

CAPÍTULO I

Do ente real, fictício e de Razão

Nada digo sobre a definição dessa ciência, nem mesmo sobre o que versa. Aqui a intenção é apenas a de explicar brevemente os pontos obscuros e que são tratados pelos autores em seus escritos metafísicos.

DEFINIÇÃO DO ENTE: Comecemos, pois, pelo ente e que entendo como Tudo aquilo que, por meio de uma percepção clara e distinta, reconhecemos existir necessariamente, ou pelo menos poder existir.

Uma quimera, um ente fictício e um ente de Razão não são entes.

Desta definição, ou se se preferir, desta descrição, segue-se que uma quimera, um ente fictício e um ente de Razão não podem de modo algum ser colocados entre os entes, pois uma quimera, por sua própria natureza, não pode existir. O ente fictício, por sua vez, exclui uma percepção clara e distinta, visto que um homem, partindo apenas de sua liberdade, junta aquilo que quer juntar ou separa aquilo que quer separar, não sem saber, como no falso, mas deliberada e cientemente. Enfim, um ente de Razão nada mais é do que um modo de pensar que serve para que as coisas conhecidas sejam mais facilmente retidas, explicadas ou imaginadas. Deve-se notar aqui que por modo de pensar entendemos aquilo que explicamos no escólio6 da proposição da parte I, a saber, todas as afecções do pensamento, tais como o intelecto, a alegria, a imaginação, etc.

 

Quais os modos de pensar por cujo intermédio retemos as coisas.

Que, ademais, existam certos modos de pensar que servem para que as coisas sejam retidas mais firme e facilmente, ou para trazê-las de volta à mente quando queremos, ou para mantê-las presentes na mente, é o que pode ser constatado por aqueles que usam aquela regra bem conhecida da memória: certamente para reter e imprimir na memória uma coisa novíssima recorremos a uma outra que já nos é familiar e que concorda com a primeira realmente ou apenas pelo nome. Foi de um modo semelhante que os filósofos reduziram todas as coisas naturais a certas classes que denominaram gênero, espécie, etc., e a que recorrem toda vez que algo novo lhes aparece.

 

Quais os modos de pensar por cujo intermédio explicamos as coisas.

Em seguida, também temos modos de pensar que servem para que as coisas sejam explicadas, determinando-as evidentemente por comparação com uma outra. Os modos de pensar que usamos para esse efeito denominam-se tempo, número, medida, e talvez haja outros. Destes, o tempo serve para a explicação da duração, o número, para a das quantidades discretas, e a  medida, para a quantidade contínua.

 

Quais os modos de pensar por cujo intermédio imaginamos as coisas.

Enfim, como todas as vezes que conhecemos uma coisa estamos costumados a figurá-la também com alguma imagem em nossa fantasia, pode acontecer que imaginemos positivamente não-entes como se fossem entes. Com efeito, a mente humana tomada em si mesma como sendo uma coisa pensante não tem uma potência maior para afirmar do que para negar. Como imaginar nada mais é do que sentirmos os vestígios deixados no cérebro pelo movimento dos espíritos, excitado nos sentidos pelos objetos, tal sensação só pode ser uma afirmação confusa. Disso decorre que imaginemos como entes todos aqueles todos que a mente emprega para negar, tais como cegueira, extremidade ou fim, término, treva, etc.

 

Por que os entes de Razão, não sendo idéias das coisas, são contudo considerados como tais?

Do que precede é óbvio que tais modos de pensar não são idéias das coisas nem podem de modo algum denominar-se idéias, porque também não possuem algum ideado que exista necessariamente ou que possa existir. Porém, a causa que faz com que tais modos de pensar sejam tidos como idéias das coisas é que provêm e se originam muito imediatamente das idéias dos entes reais, sendo facilmente confundidos com elas por aqueles que não estão bastante atentos; por isso também impuseram-lhes nomes como que para significar entes existentes fora de nossa mente, e denominaram tais entes, ou melhor, não-entes, entes de Razão.

 

Mal-fundada a divisão do ente em real e de Razão.

Pelo que precede é fácil ver quão inepta é essa divisão do ente em ente real e ente de Razão: assim, divide-se o ente em ente e não-ente, ou em ente e modo de pensar. Todavia, não me admiro de que filósofos presos ao verbalismo e à gramática incidam em tais erros; pois julgam as coisas pelos nomes e não os nomes pelas coisas. Como um ente de Razão pode ser dito um mero nada e como pode ser dito um ente real.Não fala menos ineptamente aquele que diz que o ente de Razão não é um mero nada. Pois, se investigar o que é significado por esses nomes fora do intelecto, verificará que é um mero nada; se, ao contrário, conhecer esses modos de pensar neles mesmos, verificará que são verdadeiramente entes reais. Assim, quando indago o que é uma espécie, pergunto apenas qual é a natureza deste modo de pensar; que é realmente um ente e que se distingue de todo outro modo de pensar; no entanto, esses modos de pensar não podem ser chamados de idéias, nem podem ser ditos verdadeiros ou falsos, assim como o amor não pode ser dito verdadeiro ou falso, mas bom ou mau. E Platão, ao dizer que o homem é um animal bípede sem plumas, não errou mais do que aqueles que disseram que

o homem é um animal racional. Pois Platão sabia que o homem é um animal racional tanto quanto os outros o sabiam; com efeito, colocou o homem numa certa classe para que quando quisesse pensar nele pudesse encontrar o pensamento do homem recorrendo a essa classe. Aristóteles errou ainda mais se acreditou ter explicado adequadamente a essência humana com sua definição. Quanto a saber se Platão fez bem, pode-se questionar, mas este não é o lugar para isto.

Na investigação das coisas, os entes reais não devem ser confundidos com os entes de Razão.

Por tudo que foi dito acima, não pode haver concordância alguma entre o ente real e os ideados do ente de Razão. Por aí é fácil ver com que zelo é preciso precaver-se na investigação das coisas para não confundir os entes reais com os entes de Razão. Investigara natureza das coisas é diferente de investigar os modos pelos quais nós as percebemos. Se confundirmos isto não poderemos entender nem os modos de perceber nem a própria natureza, pior ainda, o que é mais grave, por causa disto incidiremos nos maiores erros, como aconteceu a muitos até hoje.

Como se distinguem o ente de Razão e o ente fictício.

Deve-se notar também que muitos confundem o ente de Razão com o ente fictício, admitindo, portanto, que o ente fictício também é um ente de Razão porque não existe fora da mente. Entretanto, se estivermos atentos às definições dadas acima do ente de Razão e do ente fictício, verificaremos haver a maior diferença entre eles não somente em virtude de suas causas, mas também em virtude de suas naturezas sem referência às suas causas. Com efeito, dissemos que o ente fictício nada mais é do que a conjunção de dois termos feita apenas pela vontade sem ser conduzida por Razões, e por isso o ente fictício pode ser verdadeiro por acaso. Ao contrário, o ente de Razão não depende apenas da vontade, nemé composto por termos conectados, como está bastante manifesto em sua definição. Portanto, àquele que pergunta se o ente fictício é um ente real ou. um ente de Razão, devemos repetir e transcrever aquilo que já dissemos: que a divisão em ente real e ente de Razão é incorreta e que em virtude do mesmo fundamento errôneo pergunta-se se o ente fictício é um ente real ou de Razão, visto que se supõe que todo ente se divide em real e de Razão.

 

Divisão do ente.

Mas voltemos ao nosso propósito, de que parecemos ter-nos desviado um pouco. Da definição, ou melhor, da descrição do ente já exposta, é fácil ver que o ente deve ser dividido em ente que por sua natureza existe necessariamente, isto é, cuja essência envolve a existência, e ente cuja essência não envolve a existência senão possivelmente. Este último divide-se em substância e em modo, como foi dito nos artigos 51, 52 e 56, parte I dos Princípios da Filosofia, não sendo, portanto, necessário repeti-lo aqui9. Mas quero apenas que se note a respeito dessa divisão que dissemos expressamente: o ente se divide em substância e modo, mas não em substância e acidente, pois o acidente não é senão um modo de pensar, visto que denota apenas um aspecto. Por exemplo, quando digo “um triângulo é movido”, o movimento não é um modo do triângulo, mas do corpo que é movido, de sorte que o movimento é um acidente com respeito ao triângulo, mas com respeito ao corpo é um ente real ou um modo; com efeito, o movimento não pode ser concebido sem o corpo, mas pode sê-lo sem o triângulo.

Continuando, para que seja melhor compreendido o que já foi dito e também o que se segue, esforçar-nos-emos para explicar o que deve ser entendido por ser da essência, ser da existência, ser da idéia e, enfim, ser da potência. O que nos leva a isto é a ignorância de alguns que não conhecem qualquer distinção entre a essência e a existência, ou, se conhecem, confundem o ser da essência com o ser da idéia e com o ser da potência. Portanto, para satisfazê-los e às próprias coisas, na seqüência explicaremos isto o mais claramente que pudermos.

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