Textos de Leibnitz

Extraído de

www.leibnizbrasil.pro.br

Tradução: Fernando Barreto Gallas

 Meu princípio é: tudo que pode existir e é compatível com outras coisas, existe.

(Principium Meum Est, Quicquid Existere Potest, Et Aliis Compatibile Est, Id Existere)

G.W.Leibniz

12 de dezembro de 1676

Não é necessário, para explicar a multidão das coisas, aumentar a pluralidade dos mundos, porque não há quantidade [numerus] de coisas que não esteja nesse único mundo e, de fato, em qualquer de suas partes.

Introduzir um outro gênero de coisas existentes e, por assim dizer, um outro mundo também infinito, é usar mal [abuti] o nome [nomine] da existência; pois não é possível afirmar se aquelas coisas existem agora ou não. Mas a existência, como a concebemos, envolve um certo tempo determinado; ou enfim, dizemos que aquela coisa existe por, certamente, a seu propósito poder ser dito em determinado momento: “Aquela coisa agora existe.”

A multidão das coisas é maior no todo do que na parte, mesmo numa multidão infinita. Não é supérfluo discutir sobre o vácuo das formas, tal que é possível mostrar que nem todas as coisas que são possíveis per se podem existir juntas com as outras. Pois, do contrário, haverá muitas absurdidades; nada podendo ser concebido que seja tão absurdo que não exista no mundo – não apenas monstros, mas também o mal e as mentes miseráveis, e também as injustiças, e não haveria razão por que Deus deveria ser denominado de bom em vez de mau e justo em vez de injusto. Poderia haver algum mundo no qual todos os bons são punidos com penalidades eternas e todos os maus seriam recompensados e expiariam crimes com felicidade.

A imortalidade da mente é imediatamente provada pelo meu método. Pois ela é possível em si mesma e é compossível com todas as outras coisas; pois ela não reduz [imminuit] o curso das coisas. Isso porque as mentes não possuem volume. Porém, meu princípio é: tudo que pode existir e é compatível com outras coisas, existe. Porque a única razão para limitar a existência, para todos os possíveis, deve ser que nem todos são compatíveis. Assim, a única razão para a limitação é que preferencialmente deveriam existir aquelas coisas que envolvem a maior quantidade de realidade.

Se todos os possíveis existissem, não haveria necessidade de uma razão para existirem e a simples possibilidade seria o suficiente. Assim, não haveria um Deus, exceto na medida em que Ele é possível. Porém, se a opinião daqueles que crêem que todos os possíveis existem for verdadeira, um Deus tal qual o reverenciado pelos devotos não seria possível.

Nos Campos Elísios, um dialogo entre Pitágoras e Descartes relativo às almas dos brutos.

Meditação sobre o princípio de individuação.

(Meditatio De Principio Individui)

G. W. Leibniz

1º de abril de 1676

Nós dizemos que o efeito envolve [involvere] sua causa; de maneira que todo aquele que entende perfeitamente o efeito irá, também, alcançar o conhecimento da causa. Pois é necessário que haja alguma conexão entre uma perfeita [integram] causa e o efeito. Mas, por outro lado, há esse obstáculo: que diferentes causas podem produzir um efeito que é perfeitamente o mesmo. Por exemplo, se dois paralelogramos ou dois triângulos são colocados juntos de maneira apropriada (como está evidenciado a seguir), o mesmo quadrado será sempre produzido, como está claro. Ninguém, nem mesmo o ser mais sábio, poderá distinguir entre os quadrados assim produzidos.

Então, dado um quadrado deste tipo, não estará no poder de ninguém – nem mesmo do ser mais sábio – descobrir sua causa, já que o problema é indeterminado. Logo, o efeito parece não envolver sua causa.

Pelo que, de outra parte, se estivermos certos que o efeito, de fato, envolve sua causa, então, é necessário que o método de produção dos quadrados deva sempre ser discernível, quando tenham sido produzidos. De fato, é impossível que dois quadrados desse tipo sejam perfeitamente semelhantes [similia]; pois, consistirão de matéria; mas essa matéria terá uma mente [mens] e, esta, conterá [retinebit] o efeito de seu estado precedente. E, de fato, a menos que admitamos que é impossível que haja duas coisas que sejam perfeitamente semelhantes, seguir-se-á que o princípio da individuação está fora da coisa, em sua causa. Também, que o efeito não envolve a causa de acordo com sua razão específica, mas conforme sua razão individual. E, portanto, que uma coisa não difere de uma outra em si mesma. Mas se admitirmos que duas coisas sempre diferentes também diferem em si mesmas em alguns aspectos; segue-se que está presente na matéria algo que retém o efeito daquele que o precede, isto é, uma mente. E, disto, também está provado que o efeito envolve a causa. Pois, disto é verdadeiro que foi produzido por uma tal causa; logo, até agora no presente, há nele uma qualidade de tal modo que acarreta isso, e essa qualidade, mesmo que seja relativa, tem em torno dela algo que é real. É evidente que grandes conseqüências seguem de tão poucas premissas.

Esse argumento é muito refinado e prova que a matéria não é homogênea e que não podemos fielmente pensar em algo pelo que difere, exceto a mente. Já que nossa mais profunda mente está presente tanto em si mesma como na matéria, segue-se que nada pode ser introduzido nelas que não possa ser entendido por nós de alguma maneira. Esse é um princípio de grande importância.

A Profissão de fé do filósofo

G. W. Leibniz

(1673)

O teólogo catequista – Há pouco mantivemos um diálogo acerca da imortalidade da alma e da necessidade do Criador do mundo. Se tu continuares a ajudar-me assim, muito facilitarás a tarefa de instruir-te. Agora, abordemos a espinhosa questão da justiça de Deus; não há, de fato, objeção contra a providência mais freqüente ou sofística que a desordem das coisas. Desejo, com o auxílio da reta razão, que tu prepares e, por assim dizer, lustres o problema de modo que no momento em que eu trouxer a luz das verdades reveladas, sejam nossos espíritos tocados pelo reflexo mais puro de seus raios.

O filósofo catecúmeno – Agrada-me esta condição, que nos beneficia a ambos. Começa já a perguntar.

T. – Então, vamos ao nó da questão: acreditas que Deus é justo?

F. – Sim, acredito; e, na verdade, sei que é.

T. – A quem denominas Deus?

F. – À substância onisciente e onipotente.

T. – E o que é ser justo?

F. – Justo é o que ama a todos.

T. – Mas, o que é amar?

F. – Deleitar-se com a felicidade alheia.

T. – O que significa deleitar-se?

F. – Perceber a harmonia.

T. – Finalmente, o que é harmonia?

F. – Semelhança na variedade, isto é, diversidade compensada pela identidade.

T. – Admitida tua definição, parece necessário que Deus, se é justo, a todos ama.

F. – Assim é, certamente.

T. – Porém, tu sabes que muitos negam isto. 2

F. – Tem sido negado por alguns grandes homens, mas também, às vezes, eles próprios o afirmam depois de dar outro sentido às palavras.

T. – Talvez falemos acerca disto posteriormente. Por enquanto, anseio por ver o argumento que vais utilizar.

F. – Eu os tomarei das respostas que ambos temos admitido. Não é admitido que Deus é onisciente?

T. – E então?

F. – Portanto, não se concebe que haverá harmonia em alguma coisa se Ele não a conhece continuamente.

T. – Assim é.

F. – Além disso, toda felicidade é harmônica ou bela.

T. – Concordo.

F. – Provarei isso de modo que outros não possam negar. A felicidade só existe nos espíritos.

T. – Correto. Pois nada é feliz a menos que se reconheça como tal (recorda o verso famoso: O fortunatus nimium, bona si sua norint !). Todo aquele que está consciente de seu estado é um espírito. Portanto, nada é feliz a menos que seja um espírito.

F. – Bem deduzido. Porém, a felicidade é indubitavelmente o estado espiritual mais aprazível ao próprio espírito e o único estado que realmente agrada ao espírito é a harmonia.

T. – Sem dúvida, já que, como há pouco concordamos, deleitar-se nada mais é que perceber a harmonia.

F. – Portanto, a felicidade consiste no estado espiritual mais harmônico. A natureza do espírito consiste em pensar; assim, a harmonia do espírito consiste em pensar a harmonia; e a máxima harmonia espiritual, ou seja, a felicidade, consiste na concentração da harmonia universal, isto é, de Deus, no espírito.

T. – Perfeitamente. Assim, por seu turno, prova-se que a felicidade espiritual é o mesmo que a contemplação de Deus.

F. – Portanto, demonstrei minha afirmação de que toda felicidade é harmônica.

T. – Agora é tempo de concluíres a demonstração: Deus ama a todos.

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