Trecho do livro Utopia – Tomas Moore

DAS VIAGENS DOS UTOPIANOS

O ouro e a prata não têm, nesse país, mais valor do que lhes deu a natureza. Esses dois metais são ali considerados bem abaixo do ferro, o qual é tão necessário ao homem quanto a água e o fogo. Com efeito, o ouro e a prata não têm nenhuma virtude, nenhum uso, nenhuma propriedade cuja privação acarrete um inconveniente natural e verdadeiro. Foi a loucura humana que pôs tanto valor em sua raridade.

A natureza, esta excelente mãe, escondeu-os em grandes profundidades, como produtos inúteis e vãos, enquanto que expõe a descoberto a água, o ar, a terra, e tudo o que há de bom e realmente útil.
Os utopianos não escondem seus tesouros nas torres, ou em outros lugares fortificados e inacessíveis. O vulgo, numa extravagante malícia, poderia suspeitar que o príncipe e o senado enganassem o povo, enriquecendo-se e pilhando a fortuna pública. Com o ouro e a prata não se fabricam nem vasos, nem obras artisticamente trabalhadas. Porque, se houvesse necessidade de um dia fundi-los, para pagar o exército em caso de guerra, os que tivessem posto sua afeição e suas delícias nesses objetos de arte e de luxo, sentiriam, ao perdê-los, uma dor amarga.

A fim de prevenir esses inconvenientes, os utopianos imaginaram um uso perfeitamente em harmonia com o restante de suas instituições, mas em completo desacordo com as do nosso continente, onde o ouro é adorado como um Deus, procurado como o bem supremo. Eles comem e bebem em louça de barro ou vidro, que se é elegante na forma, é, no entanto, despida do menor valor; o ouro e a prata são destinados aos usos mais vis, tanto nas residências comuns, como nas casas particulares; são feitos com eles até os vasos noturnos. Forjam-se cadeias e correntes para os escravos, e marcas de opróbrio para os condenados que cometeram crimes infames. Estes últimos levam anéis de ouro nos dedos e nas orelhas, um colar de ouro no pescoço, um freio de ouro na cabeça.

Assim, tudo concorre para manter o ouro e a prata na ignomínia. Entre outros povos a perda da fortuna é um sofrimento tão cruel como um dilaceramento de entranhas; mas quando se arrancasse à nação utopiana todas suas imensas riquezas ninguém pareceria ter perdido um cêntimo.
Os utopianos recolhem pérolas na sua costa, diamantes e pedras preciosas em certos rochedos. Sem ir à cata desses objetos raros, eles gostam de polir os que a sorte os presenteia, a fim de adornar os seus filhinhos, que ficam todo orgulhosos de trazer esses ornamentos. Mas, à medida que crescem, percebem logo que estas frivolidades não convêm senão às crianças pequenas. Então, não esperam pela observação dos pais; espontaneamente e por amor próprio livram-se desses enfeites. É como entre nós, quando as crianças que vão crescendo, abandonam as bolas e as bonecas.
Estas instituições, tão diferentes das dos outros povos, gravam no coração do utopiano sentimentos e idéias inteiramente contrárias às nossas. Fiquei singularmente chocado com esta diferença por ocasião de uma embaixada anemoliana. Os enviados de Anemólia vieram a Amaurota quando eu lá estava, e como deviam tratar de negócios de alta importância, o senado esteve reunido na capital. Até então, os embaixadores das nações limítrofes que tinham vindo à Utopia, aí levaram a vida mais simples e modesta, porque estavam já ao par dos costumes utopianos. Sabiam que o luxo de seus atavios não tem lá nenhum valor, a seda é desprezada e o ouro uma coisa infame.
Mas, os anemolianos, muito mais afastados da ilha, tinham tido muito poucas relações com ela. Ao saberem que os seus habitantes vestiam-se de modo grosseiro e uniforme, imaginaram que esta extrema simplicidade era causada pela miséria, e, mais vaidosos do que sagazes, resolveram apresentar-se com a magnificência digna de enviados celestes e ofuscar esses miseráveis insulares com o brilho de um fausto deslumbrante.
Os três ministros, que eram grandes senhores de Anemólia, ao entrar em Amaurota, faziam-se seguidos de cem pessoas, vestidas de trapos de seda de diversas cores. Os próprios embaixadores traziam uma vestimenta rica e suntuosa; trajavam uma roupa de lă tecida com ouro, traziam colares e brincos de ouro nas orelhas, anéis de ouro nos dedos e os seus chapéus resplandeciam de pedrarias. Enfim, estavam cobertos do que na Utopia constitui o suplício do escravo, a marca vergonhosa da infâmia, o brinquedo da criança.

Era divertido ver a orgulhosa satisfação dos embaixadores e das pessoas do seu séquito, que, comparavam o luxo de seus paramentos às vestes simples e negligentes do povo utopiano, espalhado em massa à sua passagem. De outro lado, não era menos curioso observar a atitude da população, e como esses estrangeiros se enganavam em sua expectativa, e como estavam longe de despertar a estima e as honras que tinham imaginado.
A parte um pequeno número de utopianos, que tinha viajado no exterior por graves motivos, todos os outros olhavam com piedade todo este aparato suntuoso; os utopianos saudavam os mais ínfimos lacaios do cortejo, tomando-os por embaixadores, e deixavam passar os embaixadores, sem lhes dar mais atenção do que aos lacaios, porque os viam carregados de cadeias de ouro como seus escravos.

As crianças que já tinham abandonado os diamantes e as pérolas e que as viam nos chapéus dos embaixadores, puxavam suas mães, gritando:
Veja este grandalhão que ainda traz pedrarias como se fosse pequenino.

E as mães respondiam gravemente:

Calai-vos, meu filho, é, eu penso, um dos bufões da embaixada.
Muitos criticavam a forma dessas correntes de ouro.
Elas são, diziam, muito finas, e poderiam ser quebradas facilmente; além disso, não estão bem fechadas e apertadas, e o escravo poderia se desembaraçar delas, se quisesse, e fugir.

Dois dias depois de sua entrada em Amaurota, 08 embaixadores compreenderam que os utopianos desprezavam o ouro tanto quanto ele era venerado no seu país. Tiveram ocasião de observar no corpo de um escravo mais ouro e prata do que o que trazia toda a sua escolta. Então, humilhados em sua vaidade e envergonhados da mistificação de que tinham sido vítimas, despojaram-se apressadamente do fausto que tão orgulhosamente tinham exposto. As relações íntimas que entretiveram na Utopia, ensinaram-lhes quais

eram os princípios e os costumes de seus habitantes.
Os utopianos admiram-se de que seres razoáveis possam se deleitar com a luz incerta e duvidosa de uma pedra ou de uma pérola, quando têm os astros e o sol com que encher os olhos. Encaram como louco aquele que se acredita mais nobre e mais estimável só porque está coberto de uma lă mais fina, lă tirada das costas de um carneiro, e que foi usada primeiro por este animal. Admiram-se que o ouro, inútil por sua própria natureza, tenha adquirido um valor fictício tão considerável que seja muito mais estimado do que o homem; ainda que somente o homem lhe tenha dado este valor e dele se utilize, conforme seus caprichos.

Espantam-se também que um rico, de inteligência de chumbo, estúpido como uma acha de lenha, tão tolo quanto imoral, mantenha em sua dependência uma multidão de homens sábios e virtuosos, apenas porque a sorte lhe deixou algumas pilhas de escudos.

Mas, dizem, a fortuna pode traí-lo e a lei (que tanto quanto a sorte precipita freqüentemente o homem do pináculo ao lodo) pode arrancar-lhe o dinheiro, fazendo-o passar às mãos do mais ignóbil de seus lacaios. Então, este mesmo rico se sentirá feliz em passar também, na companhia de seu dinheiro, a serviço de seu antigo criado.

Há uma outra loucura que os utopianos detestam ainda mais, e que dificilmente concebem, é a loucura dos que rendem homenagens quase divinas a um homem porque é rico, sem serem, entretanto, nem seus devedores nem seus súditos. Os insensatos sabem, não obstante, como é sórdida a avareza desses Cresos egoístas; sabem, perfeitamente, que nunca terão um vintém de todos os tesouros destes últimos.

Nossos insulares adquirem semelhantes sentimentos, parte no estudo das letras, parte na educação que recebem no seio de uma república cujas instituições são formalmente opostas a todas as nossas espécies e gêneros de extravagância. É verdade que um número muito pequeno é dispensado dos trabalhos materiais, entregando-se exclusivamente à cultura do espírito. São, como já disse, aqueles que, desde a infância, demonstraram aptidões raras, um gênio penetrante, vocação científica. Mas nem por isso se deixa de dar uma educação liberal a todas as crianças; e a grande massa dos cidadãos – homens e mulheres – consagra, cada dia, seus momentos de repouso e liberdade aos trabalhos intelectuais.

Os utopianos aprendem as ciências em sua própria língua, rica e harmoniosa, intérprete fiel do pensamento; ela é difundida, mais ou menos alterada, sobre uma grande extensão do globo.
Antes de nossa chegada, os utopianos nunca tinham ouvido falar nesses filósofos tão famosos no nosso mundo; entretanto, fizeram as mesmas descobertas que nós, no terreno da música, da aritmética, da dialética, da geometria. Se igualam em quase tudo os nossos antigos, são bastante inferiores aos dialéticos modernos, porque ainda não inventaram nenhuma dessas regras sutis de restrição, amplificação, suposição, que se ensinam à juventude nas escolas de lógica. Ainda não aprofundaram as idéias segundas; e, quanto ao homem em geral, ou universal, segundo a gíria metafísica, este colosso, o maior dos gigantes, que nos mostram aqui, ninguém na Utopia pode ainda percebê-lo.

Em compensação, conhecem de uma maneira precisa o curso dos astros e o movimento dos corpos celestes. Imaginaram máquinas que representam com grande exatidão os movimentos e as posições respectivas do sol e da lua e dos astros visíveis acima do seu horizonte. Quanto aos ódios e às amizades dos planetas e às demais imposturas de adivinhação pelo céu, nem mesmo em sonhos disso se ocupam. Sabem prever, por indícios confirmados por uma longa experiência, a chuva, o vento e as outras revoluções do ar. Fazem apenas conjecturas sobre as causas desses fenômenos, sobre o fluxo e o refluxo do mar, sobre a composição salina dessa imensa massa líqüida, a origem e a natureza do céu e do mundo. Seus sistemas coincidem em certos pontos com os dos nossos antigos filósofos; e em outros, se afastam. Mas, nas novas teorias que imaginaram, há dissidências entre eles, como entre nós.

Em filosofia moral, agitam as mesmas questões que os nossos doutores. Procuram na alma do homem, no seu corpo e nos objetos exteriores, o que pode contribuir para sua felicidade; perguntam, procuram saber se o nome de Bem convém indiferentemente a todos os elementos da felicidade material e intelectual, ou só ao desenvolvimento das faculdades do espírito. Dissertam sobre a virtude e o prazer; mas a primeira e principal de suas controvérsias tem por fito determinar a condição única, ou as diversas condições da felicidade do homem.

Talvez possais acusá-los de propender demais para o epicurismo, porque, se a volúpia não é, para eles, o único elemento da felicidade, é um dos mais essenciais. E, fato singular, invocam em apoio dessa moral voluptuosa a religião tão grave e severa, tão triste e rígida. Têm por princípio não discutir jamais sobre o bem e o mal, sem partir dos axiomas da religião e da filosofia; de outra maneira, temeriam raciocinar em bases falhas e edificar falsas teorias.
Eis aqui seu catecismo religioso:

A alma é imortal: Deus que é bom, criou-a para ser feliz. Depois da morte, as recompensas coroam a virtude, suplícios atormentam o crime.
Embora esses dogmas pertençam à religião, os utopianos pensam que a razão pode induzir a crer neles e aceitá-los Não hesitam em declarar que, na ausência desses princípios, fora preciso ser estúpido para não procurar o prazer por todos os meios possíveis, criminosos ou legítimos. A virtude consistiria, então, em escolher, entre duas volúpias, a mais deliciosa, a mais picante; e em fugir dos prazeres a que se seguissem dores mais vivas do que o gozo que tivessem proporcionado.

Mas praticar virtudes severas e difíceis, renunciar aos prazeres da vida, sofrer voluntariamente a dor e nada esperar depois da morte em recompensa às mortificações da terra, é, aos olhos dos nossos insulares, o cúmulo da loucura.

A felicidade, dizem, não está em toda espécie de voluptuosidade; está unicamente nos prazeres bons e honestos. É para esses prazeres que tudo, até a própria virtude, arrasta irresistivelmente a nossa natureza; são eles que constituem a felicidade.

Os utopianos definem a virtude: viver segundo a natureza. Deus, criando o homem, não lhe deu outro destino.

O homem que segue o impulso da natureza, é aquele que obedece à voz da razão, em seus ódios e seus apetites. Ora, a razão inspira, em primeiro lugar, a todos os mortais o amor e a adoração da majestade divina, à qual nós devemos o ser e o bem estar. Em segundo lugar, ela nos ensina e nos instiga a viver alegremente e sem lamentações, e a proporcionar aos nossos semelhantes, que são nossos irmãos, os mesmos benefícios.
De fato, o mais enfadonho e o mais fanático zelador da virtude, o inimigo mais odiento do prazer, ao vos propor imitar seus trabalhos, suas vigílias e mortificações, ordena-vos, também, mitigar, com todas as vossas forças, a miséria e as aflições dos outros. Esse moralista severo cumula de elogios, em nome da humanidade, o homem que consola e que salva o homem; e crê, assim, que a virtude mais nobre e mais humana, em qualquer terreno, consiste em suavizar os sofrimentos do próximo, arrancá-lo ao desespero e à tristeza, restituir-lhe as alegrias da vida, ou, em outros termos, fazê-lo ter parte também na volúpia.

E por que a natureza não induziria cada um de nós a se fazer, a si mesmo, o mesmo bem que aos outros? Pois, das duas uma: ou uma existência agradável, isto é, a volúpia, é um bem ou um mal. Se é um mal, não somente não se deve ajudar seus semelhantes a fruí-la, mas ainda deve-se arrancá-la como coisa perigosa e condenável. Se é um bem, pode-se e deve-se procurá-la para si próprio como para os outros. Por que iríamos ter menos compaixão de nós do que dos outros? A natureza, que inspira em nós a caridade por nossos irmãos, não ordena que sejamos cruéis conosco mesmos.
Eis o que leva os utopianos a afirmarem que uma vida honestamente agradável quer dizer que a volúpia é o fim de todas as nossas ações; que tal é a vontade da natureza e que obedecer a esta vontade é ser virtuoso.
A natureza, dizem eles, convida todos os homens a se ajudarem mutuamente e a partilharem em comum do alegre festim da vida. Este preceito é justo e razoável, pois não há indivíduo tão altamente colocado acima do gênero humano que somente a Providência deva cuidar dele. A natureza deu a mesma forma a todos; aqueceu-os todos com o mesmo calor, envolve todos com o mesmo amor; o que ela reprova, é aumentar o próprio bem estar agravando a infelicidade de outrem.

É por isto que os utopianos pensam que é necessário observar não só as convenções privadas entre simples cidadãos, mas ainda as leis públicas, que regulam a distribuição das comodidades da vida, em outros termos, que distribuem a matéria do prazer, quando estas leis foram justamente promulgadas por um bom príncipe, ou sancionadas pelo consentimento geral de um povo, nem oprimido pela tirania, nem embaído pelo artifício.
A sabedoria reside em procurar a felicidade sem violar as leis. A religião é trabalhar pelo bem geral. Calcar aos pés a felicidade de outrem, em busca da sua, é uma ação injusta.

Ao contrário, privar-se de algum prazer, para comunicá-lo a outrem, é indício de um coração nobre e humano, e que, aliás, torna a achá-lo muito superior ao prazer sacrificado. Primeiro que tudo, esta boa ação é recompensada pela reciprocidade dos serviços; em seguida, o testemunho da consciência, a lembrança e o reconhecimento dos que foram obsequiados causam à alma delícia maior que não poderia ter dado ao corpo o objeto de que se foi privado. Finalmente, o homem que tem fé nas verdades religiosas, deve estar firmemente persuadido de que Deus recompensa a privação voluntária de um prazer efêmero e passageiro, com alegrias inefáveis e eternas
Assim, em última análise, os utopianos reduzem todas as ações e mesmo todas as virtudes ao prazer, como finalidade.

Eles chamam volúpia todo o estado ou todo movimento da alma e do corpo, nos quais o homem experimenta uma deleitação natural. Não é sem razão que eles acrescentam a palavra natural, porque não é semente a sensualidade, é também a razão que nos atrai para as coisas naturalmente deleitáveis; e por isto devemos compreender os bens que se podem procurar sem injustiça, os gozos que não privem de um prazer mais vivo, e que não arrastem consigo nenhum mal.

Há coisas fora da natureza, que os homens, por uma convenção absurda, intitulam prazeres (como se tivessem o poder de transformar a essência tão facilmente como modificam as palavras). Essas coisas, longe de contribuir para a felicidade, são outros tantos obstáculos em seu caminho; aos que seduzem, elas impedem gozarem satisfações puras e verdadeiras; viciam o espírito, preocupando-o com a idéia de um prazer imaginário. Há, com efeito, uma quantidade de coisas, às quais a natureza não juntou nenhuma doçura, as quais ela chegou até a misturar de amargura e que, no entanto, os homens olham como altas volúpias de algum modo necessárias à vida, apesar de, na sua maioria, serem essencialmente más e só estimular as paixões perversas.
Os utopianos classificam nessa espécie de prazeres bastardos, a vaidade daqueles de que já falei, que se crêem melhores porque usam uma roupa mais bonita. A vaidade desses tolos é duplamente ridícula.

Em primeiro lugar, consideram suas roupas acima de suas pessoas; pois, quanto ao que é de uso, em que, vos pergunto, uma lă mais fina prevalece sobre uma lă mais grossa? Entretanto, os insensatos, como se se distinguissem da multidão pela excelência de sua natureza, e não pela loucura de seu comportamento, erguem orgulhosamente a cabeça, imaginando valer um grande preço. Exigem, em virtude da rica elegância de suas vestes, honras que não ousariam esperar com um traje simples e comum; mostram-se indignados quando se olha a sua roupa com um olhar de indiferença.
Em segundo lugar, esses mesmos homens não são menos estúpidos por se alimentarem de honras sem realidade e sem proveitos. É natural e verdadeiro o prazer que se sente em frente de um adulador que tira o chapéu e dobra humildemente o joelho? Uma genuflexão cura alguém da febre ou da gota?
Entre aqueles que ainda seduz uma falsa imagem do prazer, estão os nobres que se comprazem com orgulho e amor no pensamento de sua nobreza. E de que se gabam? Do acaso que os fez nascer em uma longa série de ricos antepassados, e, sobretudo, de ricos proprietários (porque a nobreza de hoje é a riqueza). Todavia, se esses insensatos nada tivessem herdado de seus pais, ou tivessem devorado todo seu patrimônio, ainda assim não se sentiriam, por isso, diminuídos na sua nobreza de um só cabelo.

Os utopianos classificam os amadores de pedrarias na categoria dos maníacos de nobreza. Os homens que têm essa paixão, julgam-se uns pequenos deuses, quando encontram uma pedra bela e rara, particularmente apreciada na sua época e no seu país, pois. a mesma pedra não conserva sempre e por toda a parte o mesmo valor. O amador de pedras as compra nuas e sem ouro; leva mesmo a precaução a ponto de exigir do vendedor uma caução e até o juramento que o diamante, o rubi, o topázio são de bom quilate, de tal modo teme que um falso brilhante impressione os seus olhos! Que prazer há, pois, em olhar uma pedra natural de preferência a uma artificial, desde que o olho não apreende a diferença? Tanto uma como outra não têm realmente mais valor para um que enxerga do que para um cego.
Que dizer dos avarentos que acumulam dinheiro e mais dinheiro, não para seu uso, mas para se consumir na contemplação de uma enorme quantidade de metal? O prazer desses ricos miseráveis não é pura quimera? Será mais feliz aquele que, por uma extravagância mais estúpida ainda, enterra os seus escudos? Este último nem ao menos vê o seu tesouro, e o medo de perdê-lo faz que o perca de fato. Mas enterrar ouro não é o mesmo que roubar a si próprio e aos outros? No entanto, o avarento sente-se tranqüilo, salta de alegria quando enterrou bem suas riquezas. Agora, suponhamos que alguém se apodere desse depósito confiado à terra, e que o nosso Harpagão sobreviva dez anos à sua ruína, sem o saber; eu vos pergunto, que lhe importou nesse intervalo, ter conservado ou perdido o tesouro? Enterrado ou roubado, ele lhe deu exatamente a mesma serventia.

Os utopianos encaram também como imaginários os prazeres da caça e dos jogos de azar. Dos últimos não conhecem os desatinos senão de nome, não os praticando jamais. Que divertimento podereis encontrar, dizem eles, em jogar um dado sobre a mesa? E supondo que houvesse nisso qualquer prazer, vós já vos fartastes tantas vezes dele que deve ter-se tornado enfadonho e insípido.

Não é mais fatigante do que agradável ouvir os cães ladrarem e ganirem? Em que é mais divertido ver correr um cão atrás de uma lebre do que vê-lo atrás de outro cachorro? Entretanto, se é a corrida que faz o prazer, a corrida existe nos dois casos. Mas não é antes a expectativa da morte ou a espera da carniceria o que apaixonam os homens pela caça? E como não abrir a alma à piedade, como não ter horror a esta matança, em que o cão forte, cruel e audaz, dilacera a lebre fraca, tímida e fugitiva?

É por isso que os nossos insulares proíbem a caça aos homens livres, como um exercício indigno deles; ela só é permitida aos magarefes, que são todos escravos. E mesmo na opinião deles, a caça é a parte mal vil da arte de matar os animais; as outras partes desse ofício são muito mais consideradas, porque trazem maior lucro e porque nelas só matam os animais por necessidade, enquanto que o caçador procura no sangue e na morte um divertimento estéril.

Os utopianos desprezam todas essas alegrias, e muitas outras semelhantes em número quase infinito, e que o vulgo considera como bens supremos, mas cuja suavidade aparente não se encontra na natureza. Mesmo que esses prazeres enchessem os sentidos da mais deliciosa embriaguez (o que parece ser o efeito natural da volúpia) os utopianos sustentam que os mesmos nada têm de comum com a verdadeira voluptuosidade; porque, dizem, esse prazer sensual não vem da própria natureza do objeto, é o fruto de hábitos depravados que fazem achar doce o que é amargo. É assim que as mulheres grávidas, cujo gosto está corrompido, acham a resina e o sebo mais doces que o mel.

Os utopianos distinguem diversas espécies de prazeres verdadeiros: uns se relacionam com o corpo, outros com a alma.

Os prazeres da alma estão no desenvolvimento da inteligência e nas puras delícias que acompanham a contemplação da verdade. Nossos insulares acrescentam ainda o testemunho de uma vida irreprochável e a esperança certa de uma imortalidade bem-aventurada.

Eles dividem em duas espécies as voluptuosidades do corpo:
A primeira espécie compreende todas volúpias que exercem sobre os sentidos uma impressão atual, manifesta, e cuja causa é o restabelecimento dos órgãos consumidos pelo calor interno. Essa impressão nasce de um lado, da ação de beber e comer que devolve as forças perdidas; de outro lado, das funções animais que expelem do corpo as matérias supérfluas. Tais são as secreções intestinais, o coito, e o alívio de uma comichão qualquer, ao esfregar-se ou ao coçar-se.

Algumas vezes o prazer dos sentidos não provém das funções animais que reparam os órgãos esgotados, ou os aliviam de uma exuberância penosa; mas pelo efeito de uma força interior e indefinível que comove, encanta e seduz; tal é o prazer que nasce da música.

A segunda espécie de volúpia sensual consiste no equilíbrio estável e perfeito de todas as partes do corpo, isto é, numa saúde isenta de mal estar. Com efeito, o homem que não é afetado pela dor, experimenta em si um certo sentimento de bem estar, mesmo que nenhum objeto exterior agite agradavelmente os seus órgãos. É verdade que esta espécie de volúpia não afeta nem atordoa os sentidos, como por exemplo os prazeres da mesa; apesar disso, muitos a colocam em primeiro lugar; e quase todos os utopianos declaram que ela é a base e o fundamento da verdadeira felicidade. Porque, dizem, só uma saúde perfeita torna a condição da vida humana tranqüila e apetecível; sem saúde, não há voluptuosidade possível; sem ela, a própria ausência da dor não é um bem, é a insensibilidade do cadáver.
Uma viva disputa travou-se outrora na Utopia a este respeito. Alguns pretendiam que não se devia contar no número dos prazeres uma saúde estável e tranqüila, porque esta não dá a perceber um gozo atual e diferente, como as sensações que nos vêem de fora. Mas hoje, todos, com pequeníssima exceção, concordam em proclamar a saúde como uma volúpia essencial. Com efeito, para eles, é a dor que, na moléstia, é a inimiga implacável do prazer; ora, a moléstia é igualmente inimiga da saúde; por que então não haveria prazer na saúde, da mesma forma que há dor na moléstia? Pouco importa que a doença seja a dor ou que a dor seja inerente à moléstia, desde que os resultados são de todo semelhantes. Ainda que se considere a saúde como a própria voluptuosidade, ou como a causa que a produz necessariamente, assim como o fogo produz necessariamente o calor, o homem de saúde inalterável deve nos dois casos experimentar um certo prazer. Quando comemos, perguntam os utopianos, não é a saúde que, começando a desfalecer, luta contra a fome com a ajuda dos alimentos? Estes avançam, repelindo o seu inimigo cruel e dão ao homem a alegria que acompanha o retorno do seu vigor normal. Mas a saúde que lutara com tanto gosto, não teria o direito de rejubilar-se após a vitória? O que ela procurava na luta era a sua força primitiva; e obtido este resultado, é admissível que venha a cair num entorpecimento estúpido, sem conhecer e apreciar a própria felicidade?

Em conseqüência disto, os utopianos rejeitam completamente a opinião de que o homem sadio não tem consciência de seu estado. Segundo eles, é necessário estar-se doente ou adormecido para não sentir que se está são; seria preciso ser-se de pedra, ou estar-se atacado de letargia, para não se comprazer de uma saúde perfeita, e nisso sentir encanto. Ora, este encanto, esta satisfação, que outra coisa é senão a voluptuosidade?
Eles se entregam acima de tudo aos prazeres do espírito, que encaram como o principal e mais essencial de todos os prazeres; colocam no plano dos mais puros e mais desejáveis, a prática da virtude e a consciência de uma vida sem mancha. Entre as volúpias corporais dão preferência à saúde porque não se deve procurar a boa mesa e os outros prazeres da vida animal, senão visando a conservação da saúde, visto que essas coisas não são deleitáveis em si mesmas, mas unicamente em virtude de se oporem à invasão secreta da moléstia.

O homem prudente previne o mal, de preferência a empregar os remédios; evita a dor antes de recorrer aos alívios. De conformidade com essas normas, os utopianos usam de todos os prazeres corporais, para cuja privação fosse preciso o emprego de meios curativos. Mas não depositam toda sua felicidade nesses prazeres; do contrário, o cúmulo da felicidade humana seria a fome e a sede permanentes, pois que seria preciso então comer e beber sem cessar. Certamente semelhante vida seria tão miserável quão ignóbil.

Os prazeres animais são os mais vis, os menos puros, e sempre uma dor os acompanha. Não está presa a fome ao prazer de comer, e isto em proporções desiguais? Com efeito, a sensação da fome é a mais violenta; ela é também a mais durável pois nasce antes do prazer e não morre senão com ele.
Os utopianos, formados nesses princípios, pensam que se não deve dar importância às volúpias carnais senão na medida em que são úteis. Todavia, eles se entregam alegremente a elas, agradecidos à natureza, que, ao cuidar do homem, tem a ternura de uma mãe e mistura impressões tão doces e suaves com as funções indispensáveis da vida.

Que triste destino seria o nosso, se nos fosse preciso expulsar, à força de venenos e drogas amargas, a fome e a sede de cada dia, como expulsamos as moléstias que nos assaltam de longe em longe!

Eles mantêm e cultivam de boa vontade a beleza, o vigor, a agilidade do corpo, os dons mais agradáveis e felizes da natureza. Admitem também os prazeres que a natureza criou exclusivamente para o homem e que fazem a graça e o encanto da vida. Porque o animal não demora a olhar sobre a magnificência da criação, sobre a ordem e o arranjo do universo. Sente o odor para distinguir a alimentação, mas não saboreia a delícia dos perfumes; não conhece as relações dos sons, e não aprecia a dissonância nem a harmonia.
Finalmente, em toda espécie de satisfações sensuais, os utopianos não esquecem jamais esta regra prática:

Fugir à volúpia que impede gozar uma; volúpia maior ou que é seguida de qualquer dor. Ora, a dor é, a seus olhos, a conseqüência inevitável de toda volúpia desonesta.

Eis ainda um de seus princípios:

Desprezar a beleza do corpo, enfraquecer suas forças, converter sua agilidade em entorpecimento, esgotar seu temperamento pelo jejum e pela abstinência, arruinar a saúde, em uma palavra, repelir todos os favores da natureza, no intuito de devotar-se mais eficazmente à felicidade humana, na esperança de que Deus venha recompensar essas penas de um dia por êxtases de alegria eterna, é dar mostra de religião sublime. Mas crucificar a carne, sacrificar-se por um vão fantasma de virtude, ou para habituar-se antecipadamente a misérias que talvez não aconteçam nunca, é dar mostra de loucura, de uma covarde crueldade para consigo mesmo, de orgulhosa ingratidão para com a natureza. É pisar aos pés os benefícios do Criador, como desdenhando ser-lhe obrigado em alguma coisa.

Tal é a teoria utopiana no que se refere à virtude, e ao prazer. A menos que uma revelação descida do céu inspire ao homem qualquer coisa de mais santo, eles crêem que a razão humana não pode conceber nada de mais verdadeiro.

Esta moral é boa, é má? É o que não discutirei; não tenho tempo para tanto e não é, aliás, necessário ao meu objetivo; faço apenas história e não uma apologia. O que é certo para mim, é que o povo da Utopia, graças às suas instituições, é o primeiro de todos os povos, e que não existe em parte alguma república mais feliz.

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