Textos de Descartes

Origem: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

Agradeço a colaboração de Gabriela Terra e a correção e revisão de Ada Menéndez.

http://www.fflch.usp.br/df/caf/

Centro Acadêmico de Filosofia Prof. João Cruz Costa

I – O mundo. O tratado da luz.
DESCARTES, R. “El mundo. Tratado de la luz”. Edição bilíngüe (francês-espanhol). Barcelona – Madrid: Anthropos – editorial Del hombre, 1989. Pg.45 – 51.

Capítulo 1 – Da diferença que existe entre nossos sentimentos e as coisas que os produzem.

(Pg. 45)

§1 Propondo-me aqui a tratar da luz, quero adverti-los em primeiro lugar que pode existir alguma diferença entre o sentimento que temos dela – quer dizer, a idéia que se forma em nossa imaginação pela mediação de nossos olhos – e o que existe nos objetos que produz em nós esse sentimento – quer dizer, é o que há numa chama ou que há no sol que se denomina luz. Pois, apesar de que cada qual normalmente se persuade de que as idéias que temos em nosso pensamento são inteiramente semelhante aos objetos de que procedem, não vejo nenhuma razão que nos assegure que é assim, sendo que, ao contrário, observo numerosas experiências que devem fazer-nos duvidar disso.
§2 (Pg. 47) Sabeis perfeitamente que as palavras, sem parecerem com as coisas que significam, nos permitem concebê-las e inclusive, freqüentemente sem que nos demos conta do som dos termos nem de suas sílabas, de modo que pode ocorrer que, depois de ouvir um discurso cujo sentido compreendemos muito bem, não podemos dizer em que língua foi pronunciado. Pois bem, se as palavras, que só significam por convenção dos homens, bastam para conceber coisas com as quais não têm nada de parecido, por que a natureza não poderá também ter estabelecido certo signo [sinal] que produza em nós o sentimento da luz, apesar de que este signo não tenha em si que seja parecido com este sentimento? Não é acaso assim como foram estabelecidas as risadas e as lágrimas para que leiamos a alegria e a tristeza no rosto dos homens?

§3 Talvez [vocês] digam que nossos ouvidos somente nos fazem sentir verdadeiramente o som das palavras e nossos olhos a compostura (comportamento) daquele que ri ou chora, e que nosso espírito é quem, tendo retido o significado destas palavras e desta compostura, nos o representa simultaneamente. A isto, poderia responder que é igualmente nosso espírito quem representa para nós a idéia da luz cada vez que ação que a significa toca nosso olho. Mas sem (Pg. 49) perder tempo com disputas, melhor apresentar outro exemplo.

§4 Vocês pensam – inclusive quando não reparamos no significado das palavras e ouvimos apenas o seu som – que a idéia deste som que se forma em nosso pensamento é algo parecido ao objeto que a causa? Um homem abre a boca, move a língua, respira: nada vejo nestas ações que não seja muito diferente da idéia do som que nos fazem imaginar. A maior parte dos filósofos (Aristóteles, nota) asseguraram que o som não é mais que uma certa trepidação do ar que golpeia nossos ouvidos, de modo que, se o sentido do ouvido transmitisse a nosso pensamento a verdadeira imagem de seu objeto, seria preciso que, em vez de fazer-nos conceber o som, nos fizesse conceber o movimento das partes de ar que trepidam contra nossos ouvidos. Mas, como talvez nem todo o mundo queira acreditar no que dizem os filósofos, apresentarei mais um exemplo.

§5 De todos os nossos sentidos, o tato é o considerado menos enganoso e mais seguro, de modo que, se (eu) mostrar que inclusive o tato nos faz conceber muitas idéias que não se parecem aos objetos que as produzem, penso não deverão estranhar se eu disser que a vista pode produzir isso (Pg. 51) mesmo. Pois bem, não há ninguém que não saiba que as idéias de cócegas e de dor, que se formam em nosso pensamento ao tocarmos os corpos do ambiente, não se parecem nada com estes. Se passarmos docemente uma pena sobre os lábios de uma criança que dorme e ela sentir cócegas: vocês pensam que a idéia de cócegas que ele concebe se parece em algo com essa pena? Um soldado volta do combate: no calor da batalha podia ter se ferido sem dar-se conta; agora que seu corpo começa a esfriar, ele sente dor, acredita estar ferido, chama-se um cirurgião, que lhe tira as armas, o inspeciona e finalmente descobre que não sentia nada senão a fivela do cinto que enredava-se embaixo de suas armas, o apertava e incomodava. Se seu tato, ao fazer sentir essa fivela, tivesse imprimido a imagem em seu pensamento, não teria sido preciso um cirurgião para adverti-lo do que sentia.

§6 Pois bem, não vejo razão alguma que nos obrigue a crer que o que há nos objetos produz em nós o sentimento da luz seja mais parecido a esse sentimento do que as ações de uma pena e de um cinto aos sentimentos de cócegas e dor. Em qualquer caso, não dei estes exemplos para fazê-los crer absolutamente que a luz seja outra coisa nos objetos do que em nossos olhos, mas sim para que hesiteis e que se mantenham preocupados com isso, para agora podeis examinar melhor comigo o que ela é.

II – Dióptrica. Trechos (capítulo I e IV)
DESCARTES, R. “Discurso del método. La dióptrica. Los meteoros. La geometria”. Traducción de Guillermo Quintás. Barcelona: Círculo de Lectores, 1996. Pg. 143 – 147, 168 – 171.

Discurso Primeiro – Sobre a luz

§1 (pg.143) Toda a conduta de nossa vida depende de nossos sentidos. A visão é o mais universal e nobre de todos e não há sombra de dúvida de que as invenções que possam contribuir para alargar seu poder serão [hão de ser] as mais úteis. É difícil achar alguma [invenção] que permita um maior alcance a esse sentido [a visão] que essas maravilhosas lentes usadas desde há pouco tempo e que nos permitem conhecer novos astros, assim como outros novos corpos sobre a Terra em um número muito maior do que até então conhecêramos. Pois essas lentes, levando nossa visão muito além do que costumara atingir a imaginação de nossos antepassados, parecem ter aberto o caminho para atingirmos um conhecimento da Natureza muito mais vasto e perfeito do que eles tiveram. Porém, para vergonha de nossas ciências, essa invenção tão útil e admirável não foi conseguida senão como um fruto da experiência e do acaso [ou da sorte]. Há trinta anos, Santiago Metio, da vila de Alkmaar na ‘Holanda, (pg. 144) um homem sem estudos (apesar de ter um pai e irmão matemáticos de profissão), mas que gostava peculiarmente de construir espelhos e vidros que produzem fogo (montando-os com gelo durante o inverno, tal como a experiência revelou que é possível realizar). Numa ocasião, tendo muitos vidros de diferentes formas, notou por acaso o fenômeno ao olhar através de dois [vidros], um mais espesso no centro do que nos extremos e o outro, pelo contrário, muito mais espesso nos extremos do que no centro. Ele os montou [tão felizmente] em cada uma das pontas de uma vara, inventando, assim, a primeira das lentes às quais referimo-nos. Esse foi o padrão com o qual realizaram-se as outras [lentes] sem que ninguém, que eu saiba, tenha determinado corretamente as figuras que tais cristais devem ter. Pois, embora muitos espíritos destacados tenham cultivado a matéria e evoluído consideravelmente no conhecimento de alguns temas de ótica [do que nos mostraram os antigos], e devido a que as invenções um pouco difíceis não atingem seu grau último de perfeição num primeiro momento, considero que existem ainda suficientes dificuldades neste campo que me dão a ocasião de opinar. Considero também que a execução do que eu exponha deve depender da habilidade dos artesãos, que geralmente carecem de estudos. Por isso, tentarei ser inteligível para todos, sem omitir nem supor nada que deva ser ensinado por outras ciências. Por essa razão, começarei fazendo referência à explicação da luz e dos seus raios; depois, havendo realizado uma breve descrição das partes do olho, detalharei o modo em que se realiza a visão. Finalmente, depois de expor quantos instrumentos podem (pg. 145) aperfeiçoá-la, indicarei como as lentes podem ser utilizadas para tanto, em virtude das invenções que pretendo descrever.

§2 Já que não tenho outro motivo para falar da luz do que explicar como seus raios penetram no olho e como podem ser desviados por diversos corpos que atingem, não considero necessário incluir no meu projeto o problema da sua natureza [da luz]. Considero que sejam suficientes duas ou três comparações para auxiliar-nos a concebê-la da forma que me parece a mais confortável a fim de explicar não apenas todas aquelas propriedades conhecidas pela experiência, mas também todas aquelas que não podem ser facilmente observadas. Nesse sentido, imito os astrônomos, que apesar de ter suposições mormente falsas ou incertas, obtêm das observações por eles realizadas conseqüências muito verdadeiras e seguras.

§3 Sem dúvida, vocês devem ter notado a necessidade de utilizar um bastão como guia quando caminharam por lugares sem luz e difíceis durante a noite. Do mesmo modo, tereis notado de que o extremo do bastão permite apreciar a existência de diversos objetos em volta, podendo até distinguir se são árvores, pedras, areia, água, ervas, lama ou algum outro objeto semelhante. É verdade que essa maneira de sentir é um pouco escura e confusa para aqueles que não têm prática; entretanto, se consideramos o exercício daqueles que, cegos de nascimento, se serviram desse meio durante toda a vida, vocês verão que é tão perfeita e exata que poderíamos afirmar que vêem pelas suas mãos ou que o bastão é um órgão de um sexto sentido, que lhes foi dado por carecer da vista. Para estabelecer uma comparação a partir disto, desejo que pensem que a luz não é outra coisa nos corpos chamados luminosos que certo movimento ou uma ação muito rápida e muito vivaz em direção a nossos olhos, através do ar e dos corpos transparentes, do mesmo modo que o movimento ou a resistência dos corpos que o cego encontra chegam a sua mão através do bastão. Essa consideração evitará que vocês achem estranho, em primeiro lugar, que a luz possa estender seus (pg. 146) raios num instante desde o Sol até nós, pois vocês sabem que a ação que move um dos extremos do bastão deve atingir instantaneamente o outro e assim deveria suceder, embora a distância entre seus extremos fosse maior que a existente entre a Terra e os céus. Em segundo lugar, vocês não acharão estranho que por meio dela possamos ver toda classe de cores, assim como essas cores não são mais [nos corpos corados] do que as diferentes maneiras em que os corpos recebem e refletem a luz para nossos olhos, se vocês considerarem que as diferenças constatadas pelo cego entre as diferentes árvores, pedras, água e coisas semelhantes por meio do seu bastão, não lhe parecem menores do que são para nós as diferentes existentes entre o vermelho, amarelo, verde e todas as outras cores. Porém, todas aquelas diferenças não são outra coisa em todos estes corpos do que as diversas formas de mover ou resistir aos movimentos deste bastão. Em terceiro lugar e a partir de tal comparação, vocês terão ocasião para que não é necessário supor que flua alguma coisa material desde os objetos até nossos olhos para fazer-nos ver cores e a luz, nem que haja nada nestes objetos que seja semelhante às idéias ou sentimentos que temos deles, da mesma forma que não é necessário afirmar que flua algo desde os corpos que um cego sente (com seu bastão)nem que deva passar ao logo de seu bastão até sua mão, mas a resistência ou movimento destes corpos, que é a única causa dos sentimentos que (ele) tem, não é nada semelhante com as idéias que concebes. Desta forma, vosso espírito se verá libertado de rodas estas pequenas imagens que revolteiam pelo ar, chamadas espécies intencionais, que tanto trabalham a imaginação dos filósofos. Do mesmo modo, poder-se-á resolver facilmente outra questão, também discutida entre eles (os filósofos), relacionada com o lugar de onde provém a ação que causa a sensação visual, pois da mesma forma que nosso cego pode sentir os corpos que estão no seu arredor não apenas em virtude da ação de quando eles se chocam contra seu bastão, mas também em virtude do movimento de sua mão, quando a única coisa que fazem é opor-lhe resistência, da mesma forma é preciso admitir que os objetos da vista podem ser sentido não apenas em virtude da força da (pg. 147) ação, que fluindo-se deles encaminha para os olhos, mas também em virtude daquela que, sendo própria dos olhos, encaminha-se para os objetos. Porém, posto que tal ação não é outra coisa que a luz, é preciso fazer notar, em primeiro lugar, que nada, com exceção daqueles que podem ver nas trevas, como os gatos, podem ter-la em seus olhos. E deve advertir-se, em segundo lugar, que no caso ordinário dos homens não vêem senão pela ação que parte dos objetos, pois a experiência nos mostra que são os objetos que devem ser luminosos ou devem ser iluminados para serem vistos e não nossos olhos.

(pg.168)
Discurso Quarto – Sobre os sentidos

§1 É preciso que (eu) comunique algumas observações relacionadas à natureza dos sentidos em geral, a fim de poder explicar de modo particular e mais facilmente a [a natureza] da vista. Já sabemos que é a alma a que sente e não o corpo, pois se observa que, quando ela está em êxtase ou entregue a uma profunda contemplação, o corpo permanece sem sentimento, embora diversos objetos o excitem. E se conhece que isto não é propriamente enquanto esta [a alma] reside nos membros que servem de órgãos aos sentidos exteriores, mas enquanto que reside no cérebro, órgão no qual se exerce essa faculdade que chamam sentido comum. Afirmo isso pois se observam feridas e doenças que atingindo só o cérebro inibem geralmente todos os sentidos, embora o resto do corpo não deixe por isso de estar animado. Enfim, se sabe que as impressões, produzidas nos membros exteriores pelos objetos, chegam por meio dos nervos até a alma no cérebro, pois certos acidentes em que só fica lesado algum nervo anulam a sensibilidade em todas as partes às quais que o nervo dirige seus ramos, sem diminuir em nada as de outros (nervos). Mas para conhecer mais detalhadamente de que forma a alma, residindo no cérebro, pode também por meio dos nervos receber as impressões dos objetos exteriores, é preciso distinguir três elementos nestes nervos: em primeiro lugar, as peles que os rodeiam e que, originando-se naquelas que cobrem o cérebro, vêm a ser como pequenos ductos [canais] que, divididos em múltiplos ramos, vão espalhar-se por todas as partes, em todos os membros, da mesma forma que acontece com as veias e as artérias. Em segundo lugar, deve distinguir-se a substância interior que se estende em forma de pequenos filamentos ao longo desses dutos desde o cérebro, de onde se origina, até as extremidades de outros membros com que se liga; portanto, se pode imaginar que em cada um desses pequenos dutos existem muitos desses pequenos filamentos independentes entre si. Finalmente, (pg. 169) os espíritos animais, que são como um ar ou um vento muito sutil que, provindo das câmaras ou concavidades que estão no cérebro, se deslizam por estes dutos dentro dos músculos. Os anatomistas e os médicos manifestam que estes três elementos se encontram nos nervos, mas não me parece que algum deles tenha distinguido adequadamente a função dos mesmos. Pois, vendo que os nervos não servem somente para conceder sensibilidade aos membros, mas também que lhes conferem movimento e que, algumas vezes, se produzem paralisias, que embora impeçam o movimento, não por isso anulam a sensibilidade, alguns anatomistas e médicos têm afirmado a existência de duas classes de nervos: uns relacionados exclusivamente com os sentidos e outros com os movimentos. Igualmente defenderam que a faculdade de sentir residia nas peles ou membranas e a faculdade de mover na substância interior dos nervos. Tais teorias vão contra a razão e a experiência. Pois, quem pôde observar a existência de algum nervo que servisse ao movimento e não a algum sentido? E como, se a sensibilidade depende das peles, poderiam as distintas impressões dos objetos chegar até o cérebro por meio das mesmas? Afim de evitar tais dificuldades é preciso pensar que são os espíritos mencionados os que, fluindo através dos nervos no interior dos músculos e dilatando-os mais ou menos a uns e a outros, segundo as diversas formas em que o cérebro os distribui, causam o movimento de todos os membros; do mesmo modo deve crer-se que são os pequenos filamentos dos quais é composta a substância interior destes filamentos, os que se relacionam com os sentidos. E devido ao fato que neste lugar não acho necessário tratar do movimento, somente desejo que vocês pensem que esses pequenos filamentos, que ocupam a parte interior dos mencionados dutos, que estão constantemente dilatados e permanecem abertos em virtude da ação dos espíritos contidos (pg.170) nos mesmos, não se pressionam nem obstaculizam em forma alguma entre si, estendendo-se desde o cérebro até as extremidades de todos os membros capazes de ter algum sentimento, de forma tal que por pouco que se toque ou se mova uma parte de um destes membros, à qual algum está unido, também se provoca no mesmo instante o movimento daquela parte do cérebro na qual este se origina, do mesmo modo que puxando a extremidade de uma corda tensa, produz-se no mesmo instante um movimento na outra [extremidade], pois, sabendo que estes filamentos estão fechados na forma de escrita nos dutos, que em virtude da ação dos espíritos, estão sempre um pouco dilatados e abertos, é fácil compreender que embora fossem muito mais finos do que os fios de seda e mais delicados do que as teias das aranhas, não deixariam [mesmo assim] de estender-se desde a cabeça até os membros mais distantes sem perigo de quebrar-se nem de ver-se impedidos pelas diversas posições dos seus membros. É preciso, por outro lado, ter a precaução de não supor que para sentir, a alma tenha a necessidade de contemplar algumas imagens, que fossem enviadas pelos objetos até o cérebro, tal como geralmente afirmam os filósofos; pelo menos, seria preciso conceber a natureza dessas imagens de forma muito distinta do modo em que as concebem esses filósofos. Pois, enquanto só se considere, em relação a tais imagens, que elas devam ter semelhança com os objetos representados por elas, lhes será impossível mostrar-nos como podem ser formadas por esses objetos, recebidas pelos órgãos dos sentidos exteriores e transmitidas pelos nervos até o cérebro. Por outra parte, tais pensadores não tiveram razão alguma para supor a existência de tais imagens exceto que vendo que nossa mente poder ser facilmente excitada por um quadro para formar a idéia do que está representado nele, eles acharam que devia acontecer a mesma coisa para conceber as idéias daqueles objetos que excitam nossos sentidos em virtude de uma espécie de pequenos quadros que se formassem em nossa cabeça. Pelo contrário, devemos considerar que existem outras que podem excitar nosso pensamento, como por exemplo, os signos e as palavras, que não têm semelhança alguma com as coisas que [eles] (pg. 171) significam. E se, para afastar-nos pouco das opiniões generalizadas, preferimos afirmar que os objetos que sentimos enviam na verdade suas imagens até o interior do nosso cérebro, então é preciso, pelo menos, fazer constar que não há imagens que devam ser totalmente semelhantes aos objetos que representam, pois em tal caso não haveria distinção entre o objeto e sua imagem. É suficiente que se assemelhem em poucas coisas; freqüentemente, a perfeição das imagens depende do que não cheguem a parecer-se tanto como poderiam. Assim, vemos que as gravuras não sendo realizadas senão com uma pequena quantidade de tinta espalhada em diversos pontos sobre o papel nos representam selvas, cidades, homens e inclusive batalhas e tempestades, que nos fazem conceber tal infinidade de detalhes que não existe nada, com exceção da figura à que se pareçam; ainda nisso a semelhança é muito imperfeita, dado que sobre uma superfície totalmente plana nos representam os corpos mais perto ou mais longe, do mesmo modo que, seguindo as regras da perspectiva, representam os círculos mediante elipses e não mediante outros círculos; os quadrados mediante losangos e não por outros quadrados, e assim como outras figuras de sorte que freqüentemente para serem mais perfeitos enquanto imagens e representar mais perfeitamente um objeto, devem ser diferentes dele; de igual forma é preciso pensar em relação com as imagens que se formam em nosso cérebro, destacando que somente se trata de saber como podem dar lugar a que a alma sinta todas as diversas qualidade destes objetos com os quais se relacionam e não como têm em si semelhança. Acontece, pois, o mesmo com o cego do que falamos anteriormente. Quando toca alguns corpos com seu bastão, é certo que eles não lhe enviam coisa alguma, mas permitindo que o seu bastão se mova de modo diverso, segundo as diversas qualidades destes corpos, produzem o movimento dos nervos de sua mão e em conseqüência de determinadas partes de seu cérebro: daquelas em que se originam [os nervos]. Isto dá ocasião para a alma sentir tantas qualidades como variedades de movimentos que são possíveis, que sejam causadas por eles em seu cérebro

Anúncios

, ,

  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: