Texto de “Al-Farabi”: A Cidade Excelente

I
O existente primeiro é a causa primeira da existência de todos os demais existentes.
Ele é isento de todos os modos de insuficiência. Em comparação a ele, tudo o
mais, inevitavelmente, tem em si algum modo de insuficiência, seja uma, seja muitas.
Quanto ao primeiro, é ele isento de todos os modos [referentes] a elas.

Sua existência é a mais excelente existência, a mais anterior existência, não sendo
possível que houvesse uma existência mais excelente e nem mais anterior do que
a sua existência. Ele está no modo supremo de excelência da existência e no mais
elevado grau de perfeição da existência. Por isso, não é possível que sua existência e
que sua substância impliquem, de maneira alguma, uma privação, pois a privação e a
contrariedade encontram-se apenas e tão somente naquilo que está abaixo da esfera da
Lua, visto que a privação é a não-existência daquilo que está em condições de existir.

E mais, não é possível que ele tenha uma existência em potência de não existir.
Por isso, pois, ele é eterno, existencialmente perpétuo em sua substância e [em] sua
essência, sem que, para que seja eterno, ele tenha necessidade de alguma outra coisa,
em absoluto, que prolongue sua permanência. Ao contrário, quanto à sua permanência
e à perpetuação de sua existência, ele, por meio de sua substância, é o bastante.

Não é possível, absolutamente, que haja uma existência similar à sua existência
e, menos ainda, uma existência que fosse similar ao seu grau de existência, que o consolidasse
ou que a ele viesse a somar-se.

Ele é o existente do qual não é possível haver uma causa “por meio da qual”, ou
“a partir da qual” ou “para a qual” ele tivesse sua existência. Ele, pois, não é matéria,
sua estrutura não está numa matéria e tampouco num substrato. Antes, sua existência
é isenta de toda matéria e de todo substrato. Além disso, ele não tem forma, visto que
não é possível que a forma não esteja numa matéria. Caso ele tivesse forma, então, sua
essência seria uma síntese de matéria e forma e, se assim fosse, então sua estrutura
seria por meio das partes a partir das quais ele teria sido sintetizado, havendo para ele,
então, uma causa, na medida em que cada uma de suas partes seria uma causa para a
existência de sua totalidade. Ora, havíamos estabelecido que ele é a causa primeira.

Além disso, para que ele seja, sua existência não tem um propósito ou uma finalidade,
de modo que sua existência fosse em vista de ele completar tal finalidade
e tal propósito. Afinal, esta seria uma certa causa para sua existência e ele não seria,
portanto, uma causa primeira. Além do mais, sua existência não é adquirida a partir de
uma outra coisa mais anterior do que ele – e menos ainda o seria a partir de algo que
estivesse abaixo dele.

II
Por sua substância, [o primeiro] é distinto de tudo o mais, exceto de si [próprio],
não sendo possível que a existência que ele possui, pertencesse a uma outra coisa que
não fosse ele [mesmo]2. Afinal, não é possível, em absoluto, que haja distinção – nem variação
– entre tudo aquilo cuja existência é tal e uma outra coisa que também tivesse esta
existência pois, nesse caso, elas não seriam duas, mas uma só essência, e nada mais. Ora,
se houvesse distinção entre os dois, então, aquilo por meio do que eles se distinguissem
seria diferente daquilo por meio do que estariam associados. Logo, a coisa que distinguiria
um do outro, seria uma parte inclusa na estrutura da existência de cada um dos dois
– e aquilo em que estariam associados seria a outra parte. Ora, no enunciado3, cada um
deles seria divisível; e cada uma de suas duas partes seria causa para a estrutura de sua
essência. Assim ele4 não seria “primeiro”, mas nesse caso, haveria uma outra existência,
anterior a ele, a qual seria causa de sua existência, o que é um absurdo.

Por outro lado, se houvesse naquele outro [B]5 aquilo por meio do que ele se
distinguisse deste [A] – não havendo nada em que [A] se distinguisse daquele [B], a
não ser ainda a coisa por meio da qual [A] se distinguiria daquele [B] – então, conseqüentemente,
a coisa por meio da qual aquele [B] seria distinto deste outro [A],
seria a existência que particularizaria aquele [B], ao passo que a existência deste [A]
seria comum a ambos. Assim, a existência daquele outro [B] seria composta de duas
coisas: uma que lhe particularizaria e outra por meio da qual [B] estaria associado a
este [A]. Com efeito, a existência daquele [B] não seria a existência deste [A]. Antes,
a essência deste [A] seria simples, indivisível, ao passo que a essência daquele
[B] seria divisível. Assim sendo, aquele [B] teria duas partes por meio das quais se
daria sua estrutura e, então, sua existência teria uma causa. Ora, sua existência seria
inferior e faltante frente à existência deste [A] e ele não estaria incluído, portanto, na
existência em primeiro grau.

Além do mais, caso houvesse um [existente] semelhante [ao primeiro] cuja existência
fosse da [mesma] espécie, [mas] extrínseco a ele por uma outra coisa [qualquer],
então não haveria o existencialmente completo6. Pois, o completo é aquilo fora do qual
não é possível encontrar uma existência da [mesma] espécie que a sua. Isso ocorre em
qualquer coisa que seja: o completo em grandeza é aquilo fora do qual não existe grande
algum; o completo em beleza é aquilo fora do qual não existe beleza de espécie alguma
e, do mesmo modo, o completo em substância é aquilo fora do qual não existe coisa alguma
que seja da [mesma] espécie de sua substância.
O mesmo ocorre [também] com tudo aquilo que se refere aos corpos em sua
completude, não sendo possível, pois, que haja uma outra coisa de sua espécie a não
ser ele [mesmo]. Por exemplo, o Sol, a Lua e cada um dos outros astros. Assim, dado
que o primeiro é o existencialmente completo, não é possível que tal existência pertença
a uma outra coisa que não seja ele [mesmo]. É ele, portanto, o existencialmente
insulado, ímpar e, sob esse ponto de vista, único.

Anúncios

, ,

  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: