Texto de “Al-Kindi”: A Filosofia Primeira

[…]

Isso acontece em razão da inveja instalada em suas almas bestiais7, eclipsadas pela treva de
seus véus, que os impedem de ver seu pensamento à luz da verdade; e por rebaixarem aqueles
que tem as virtudes humanas – que eles [próprios] não conseguiram obter, ficando delas muito
afastado – como se fossem inimigos impertinentes e maléficos, usurpando e ocupando seus
postos, erguidos sem merecimento, mas apenas para dominar e traficar a fé. Eles, os destitu-
ídos de toda fé. Pois, quem trafica algo o vende, e quem vende algo não o tem. Logo, quem
trafica a fé, não a tem.

É certo que carece da fé quem se opõe tenazmente à obtenção da ciência das coisas em
suas verdades [essenciais]. A isto se dá o nome de descrença, pois, na ciência das coisas em
suas verdades [essenciais] está a ciência da soberaneidade, a ciência da unicidade, a ciência da
virtude e a totalidade da ciência de tudo o que é útil – e o caminho até ela – o afastamento e o resguardo de tudo o que é prejudicial. Adquirir isso tudo é o que os autênticos enviados trouxeram da parte de Deus – que seja exaltada sua louvação – pois aquilo que os autênticos enviados trouxeram – que as orações de Deus estejam com eles – foi por meio da resolução da soberaneidade de Deus, apenas para aderirmos às virtudes aprovadas por Ele, e para abandonarmos os vícios que, em si mesmos, são opostos às virtudes, e para que preferíssemos estas.

É necessário, portanto, tomarmos posse dessa preciosidade junto aos que detém a ver-
dade e buscá-la com todo empenho, por tudo aquilo que já adiantamos e pelo que diremos
agora: adquiri-la é necessário, segundo as [próprias] palavras de seus adversários, pois, ine-
vitavelmente ele têm de dizer se adquiri-las é ou não é necessário. Pois bem, se disserem que
é necessário, eles terão que buscá-la e, se diserem que não é necessário, terão que fornecer
a causa disso, e demonstrar. Ora, o fornecimento da causa e da demonstração faz parte da
aquisição da ciência das coisas em suas verdades [essenciais]. Por suas próprias palavras,
portanto, é necessário que procurem tal aquisição e a tomem. Assim, estarem dispostos e a
tomarem lhes é necessário.

[Quanto] a nós, pedimos Àquele que vê todos os nossos segredos, que é conhecedor de nosso empenho em estabelecer o argumento de sua soberaneidade e evidenciar sua unicidade e defende-Lo de seus adversários, os incrédulos, por meio de argumentos que escondem suas infâmias e denunciam suas vergonhas, por [seguirem] seitas destrutíveis. Que sejamos protegidos – assim como aqueles que seguem nossos caminhos – pela fortaleza de Sua glória inquebrantável, que sejamos revestidos com Sua armadura protetora; que Ele nos dê a ajuda de suas espadas penetrantes e o apoio de Sua força vitoriosa, para que possamos alcançar a finalidade de nosso intento, fazendo triunfar a verdade, sustentando o [que for] autêntico. E que alcan-
cemos, enfim, o grau daqueles cujos intentos Ele aceita e cujas ações Ele aprova, concedendo-lhes o êxito e a vitória contra os oponentes, descrentes de Sua graça, desviados do caminho da verdade que é abençoado por Ele.

Completemos, agora, essa parte com o apoio do Protetor das belas ações e Acolhedor
das boas obras.

A Respeito da Filosofia Primeira
Posto que, aquilo que era necessário antecipar, o fizemos no prefácio deste nosso livro,
prossigamos, então, com o que naturalmente lhe segue. Dizemos, pois: a existência humana
são duas existências. Uma delas é mais próxima de nós e mais distante da natureza, [isto é,]
a existência dos sentidos que temos desde que nascemos e que tem [também] o gênero geral8
ao qual pertencemos, assim como muitos [outros] além de nós – quero dizer, o vivente geral,
pertencente ao conjunto dos animais. Assim, nossa existência pelos sentidos – quando o sentido encontra seu sensível – é instantânea e sem esforço; ela é instável em razão do dissipar daquilo que encontramos, por sua fluidez e por sua mudança em cada estado, de acordo com uma das espécies dos movimentos: disparidade da quantidade conforme “mais” e “menos; “igualdade” e “desigualdade”; alteração da qualidade conforme a “semelhança” e “dessemelhança”; “mais intenso” e “mais
fraco”. Assim, ela [existência pelos sentidos] está incessantemente num dissipar constante
e numa mudança ininterrupta, [embora] seja ela quem estabilize suas formas na formativa,
conduzindo-as à memória sendo, assim, similarizadas e concebidas na alma do vivente. Dessa
maneira, isto – mesmo não tendo estabilidade na natureza e dela estando distante, portanto,
oculta – está muito próximo do sensivo, em razão de seu existir no sentido, quando o sentido
se depara com ele9. Todo sensível é sempre dotado de hylé. Logo, o sensível é sempre corpo
e [percebido] por meio de um corpo.

A outra [existência] é mais próxima da natureza e mais distante de nós: é a existência
do intelecto. Na verdade, o que há na existência são duas existências: existência sensível e
existência intelectual, na medida em que as coisas são universais e particulares. Por “univer-
sal” quero dizer os gêneros em relação às espécies, e as espécies em relação aos indivíduos;
e por “particulares”, quero dizer os indivíduos em relação às espécies. Os indivíduos particu-
lares hílicos incidem nos sentidos. Quanto aos gêneros e às espécies, [estes] não incidem nos

suas vergonhas, por [seguirem] seitas destrutíveis. Que sejamos protegidos – assim como
aqueles que seguem nossos caminhos – pela fortaleza de Sua glória inquebrantável, que
sejamos revestidos com Sua armadura protetora; que Ele nos dê a ajuda de suas espadas
penetrantes e o apoio de Sua força vitoriosa, para que possamos alcançar a finalidade de
nosso intento, fazendo triunfar a verdade, sustentando o [que for] autêntico. E que alcan-
cemos, enfim, o grau daqueles cujos intentos Ele aceita e cujas ações Ele aprova,
concedendo-lhes o êxito e a vitória contra os oponentes, descrentes de Sua graça, desviados do
caminho da verdade que é abençoado por Ele.
Completemos, agora, essa parte com o apoio do Protetor das belas ações e Acolhedor
das boas obras.

7 O termo bahīmiyyah é um qualitativo derivado da
raiz que significa “besta, quadrúpede”, enfim, “animal”
em oposição ao humano. O termo surge no texto em
seu sentido depreciante, negativo, sem nenhuma seme-
lhança com o sentido positivo que tal significante pode
adquirir em língua portuguesa.

8 O termo cāmm adquire aqui o sentido de universal, mais próximo a kulliyy
e não propriamente o sentido de “comum”, mais próximo a muštarak.
9 A passagem em questão faz referência ao modo pelo qual os sentidos
externos apreendem as formas dos sensíveis, a partir dos existentes que se
encontrem diante dos órgãos sensoriais. Ainda que tais existentes sejam, em
seguida, suprimidos do face-a-face, suas formas são fixadas na faculdade
formativa e na memória. O tema é amplamente desenvolvido por Ibn-Sīnā
no Capítulo IV do Livro da Alma. errubem sua descrença, desvelando os véus que escondem suas infâmias e denunciam

Anúncios

, , , ,

  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: